Análise: “Precisamos falar sobre o Kevin”

“Precisamos falar sobre o Kevin”, muito mais do que um filme sobre um psicopata, conta a história de uma família destruída pelo silêncio e pela negação da realidade. No roteiro, baseado no livro da escritora norte-americana Lionel Shriver, Eva é uma mãe que não consegue criar um vínculo com seu filho, que apresenta sinais claros de psicopatia. Sem muita habilidade para ser mãe, Eva é melancólica, passiva e apresenta sentimentos contraditórios pelo filho logo após seu nascimento. A cena na qual ela se posta em frente a uma britadeira em funcionamento com o carrinho de bebê para abafar o choro de Kevin é notória de sua absoluta falta de preparo para ser mãe.  Sua feição de prazer demonstra bem a contradição do sentimento de muitas mães e pais diante do nascimento dos filhos: o amor incontestável pela criança é sempre rondado por um pensamento, muitas vezes inconsciente, de liberdade perdida. Eva sofrerá com esse sentimento durante toda a vida. Biologicamente, ama o filho, não há como não amá-lo. Mas em outro nível o sente sempre como um peso, uma tragédia que estragou sua vida. Isso, antes mesmo de perceber com clareza os graves problemas comportamentais do menino.

O erro crucial de Eva, como mãe e ser humano, foi exatamente o de não reconhecer para si mesma que seu filho não era como os outros e que, por isso, nutria por ele uma raiva incontrolável. O problema não é o que ela sente, mas como ela busca esconder dela mesma aquilo que sente. A todo o momento, ela luta para que o filho se torne uma criança normal. No momento de qualquer sinal de que isso possa acontecer, ilude-se e deixa de encarar a situação de forma realista. Seu instinto materno, um excesso de amor irracional, não a deixa agir diante do que percebe. Em certo nível, ela sabe que o filho apresenta sinais preocupantes, mas deixa tudo encoberto pelo silêncio na esperança de estar errada. Sua fantasia é a de ter um filho enquadrado nos padrões ditos normais. A realidade insiste em mostrar o contrário.

Esse ódio misturado ao amor materno só aumenta quando seu filho cresce e começa a mostrar sinais de que realmente não possui nenhum traço de humanidade ou sentimento. Eva, apesar de ter ódio pelo filho que possui, tenta a todo custo tratar a criança como se ela fosse normal. Luta por criar uma relação artificial de amor e carinho. Ela tem vergonha de seu ódio e um medo enorme de ser a culpada pela personalidade do filho. Prefere, assim, não se implicar na realidade e prosseguir deixando toda a sujeira embaixo do tapete. Eva, inconscientemente, teme se responsabilizar por algo sobre a qual ela nunca teve controle. Seu filho nasceu psicopata e tudo que ela fez foi se calar diante do fato, alimentando ainda mais a personalidade doentia do garoto.

 Seu marido, por sua vez, quase não existe. Kevin, ardiloso como todo psicopata, ganha a confiança do pai, que parece viver num mundo encantado em que sua família é perfeita e nada pode abalar o lar. Eva, ao observar o jogo do filho, prossegue esperançosa de que não passa de uma fase. Em nenhum momento os dois conversam seriamente sobre o comportamento errático do menino. Quando Eva tenta abrir o diálogo, seu marido logo a interrompe dizendo que se trata apenas de uma criança normal. A mãe, mesmo sabendo que não, prossegue levando a fantasia familiar adiante. Encarar a realidade seria doloroso demais e quebraria a imagem de família perfeita que o pai passivo insiste em desenhar.

Inspiração real e a mãe suficientemente boa

O livro que dá origem ao filme foi publicado após um longo estudo da escritora Lionel Shriver sobre casos de jovens que promoveram os tão comuns massacres em colégios norte-americanos. Trata-se de um importante relato de nossa época, pois diz muito sobre jovens das famílias ditas normais que de repente entram atirando em uma escola. No caso de Kevin, que é um pouco de cada um desses jovens, percebe-se como o meio em que ele viveu alimentou seu ódio e deu todos os argumentos que ele precisava para colocar em prática um massacre.

Seu pai, quando ele ainda é uma criança, o ensina e o estimula a atirar com arco e flecha. A mãe nada fala, mesmo sabendo que aquela arma não era exatamente segura nas mãos de um menino que desde a época das fraudas parece ter a maldade como única diversão. A vida fantasiosa – estimulada por uma sociedade norte-americana que valoriza muito mais as aparências do que a realidade – tenta a todo custo descartar os claros problemas que assolam a família. Não existem conversas, as relações são superficiais e as máscaras a todo o momento estão coladas ao rosto. Não existe sequer um diálogo franco. Todo o núcleo familiar parece encenar uma peça de ficção. Apenas Kevin tem noção da realidade: ele sabe exatamente o que é e como manipular toda a situação. Sua psicopatia o afasta das falhas humanas que acontecem seguidamente na relação familiar. Kevin, por incrível que pareça, parece ser a pessoa que melhor enxerga o que de fato acontece.

Os pais de Kevin representam os pais fracos, frágeis e infantilizados de nossa época, que não conseguem lidar de forma natural com os filhos. Preocupados com padrões, manuais e livros de autoajuda, esquecem-se de ser o que são, de agirem por instinto. O instinto de Eva dizia a todo o momento que seu filho precisava de ajuda, que ela mesma precisava de suporte para entender o que se passava com a criança. Que algo estava muito errado. A máscara que ela decidiu vestir, no entanto, foi a da indiferença e da negação da realidade. Quando age por instinto já é tarde: o ódio já está tão acumulado que ela empurra e quebra o braço do menino, que ganha mais uma arma para continuar seu jogo. A culpa cai toda nas costas de Eva.

O psicanalista inglês Winnicott fala sobre a mãe suficientemente boa. Trata-se da progenitora que, longe de ser perfeita, cuida do filho com os sentimentos e não por meio de técnicas ou regras estabelecidas. Ela respeita a singularidade da criança e fornece a ela aquilo que é necessário para o seu crescimento e amadurecimento emocional. “Não basta, apenas, que a mãe olhe para o seu filho com o intuito de realizar atividades mecânicas que supram as necessidades dele; é necessário que ela perceba como fazer para satisfazê-lo e possa reconhecê-lo em suas particularidades”, diz o psicanalista. O equívoco de Eva é não perceber e reconhecer, por meio dos sentimentos e do instinto, as características óbvias apresentadas por Kevin.

Segredo familiar: o silêncio que destrói

Freud falava sobre os segredos familiares no início do século XX. Nele, zonas de silêncio ocorrem nas relações familiares com o intuito de não lidar com a dor e a angústia que o fato trará. A família de Kevin cria toda sua vida baseada em um silêncio ensurdecedor. Os pais não querem entrar em contato com o fato de seu filho ser diferente do que é considerado normal. Imagine a dor de encarar o fato de ter um filho psicopata? Os transtornos são irreparáveis, já que um psicopata não tem nem cura nem explicação (leia aqui para saber mais sobre a psicopatia). A opção encontrada no núcleo familiar para não ter de encarar um problema real é fingir que ele não existe ou que ele é passageiro. O silêncio, porém, vai apodrecendo toda a relação. É como se um gigantesco esgoto se formasse por baixo da estrutura da casa. Uma hora seu conteúdo excede e ele brota do chão e das paredes.

O varrer a sujeira para baixo do tapete é uma estrutura típica das famílias e das relações humanas. Discutir e dialogar sobre problemas têm cada vez menos espaço. O silêncio toma conta e as coisas se acumulam sem controle. Acontece em pequenos problemas cotidianos de uma família normal, como aconteceu de forma trágica com a família de Kevin. O silêncio costura uma situação insustentável que sufoca a família e faz com que as relações se tornem insuportáveis. O não dito invade todas as esferas (leia texto aqui em que trato disso de forma mais superficial e leve do que o filme).

No fim do filme, a pergunta fatal: de quem é a culpa por Kevin ser o que é? Do pai invisível, da mãe perdida ou da criança que nasceu psicopata? A resposta é mais complexa que isso. A culpa é de toda uma relação familiar baseada em máscaras e aparências. A culpa é da tentativa de fugir, de negar o fato de que, muitas vezes, a vida não se desenha da forma como gostaríamos. Não perceber que algo não cheira bem, que o esgoto está sempre passando por baixo de nossa sala, é alimentar um monstro ainda maior. A mãe, o pai e a sociedade não criaram Kevin, mas o fizeram se tornar maior do que se poderia prever ao jogar toda a sujeira para debaixo do tapete. É preciso implicar-se com a dor para não ser mais tarde perseguido por ela. Eva e o marido preferiram fugir da dor e foram alcançados da forma mais trágica possível.

André Toso é jornalista e psicanalista

 

About these ads

Uma resposta

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s